”“Não compartilho meus pensamentos achando que vou mudar a cabeça de pessoas que pensam diferentemente. Compartilho meus pensamentos para mostrar às pessoas que já pensam como eu, que elas não estão sozinhas.” (autor não identificado)

sábado, 23 de abril de 2016

Corrupção, moral e filosofia

No capítulo X de "Cândido, Ou o Otimismo", romance "filosófico" escrito por Voltaire, a bordo do navio que o conduzia ao Paraguai, o personagem título, relembrando o filósofo Pangloss (que imaginava ter visto morrer enforcado num auto-de-fé em Lisboa), dizia aos seus companheiros de viagem: "Vamos para um outro universo. É lá sem dúvida que tudo está bem, pois cumpre confessar que em nosso mundo não faltava o que chorar quanto ao lado físico e moral das coisas".

Plagiando Voltaire, atrevo-me a dizer que em nosso país não falta "o que chorar quanto ao lado físico e moral das coisas", principalmente da política. Há ainda outras coincidências entre essa obra de Voltaire e o ambiente político e o descompasso social, há séculos, vigorantes no Brasil.

Primeiro: é condição fundamental para que um político exerça um cargo eletivo nas esferas federal, estadual e municipal, seja no executivo ou no legislativo, que ele seja antes um candidato (esqueçamos os senadores biônicos, de triste memória). Apesar dos dicionários da língua portuguesa mais populares não apresentarem esta denotação para o substantivo candidato, registrando tão somente o significado corrente em nossa língua ("aspirante a emprego, cargo, vaga em determinada instituição, honraria ou dignidade, aquele que pleiteia um cargo eletivo"), a palavra se origina do vocábulo latino "candidatus", que significa aquele que veste roupa branca, o que lhe dá, na origem, significado semelhante ao do adjetivo cândido (alvo, imaculado, puro, sincero, ingênuo, inocente). Por motivos óbvios sabemos que os nossos candidatos, os nossos políticos, não podem e nem dever ser adjetivados como cândidos.

Segundo: empregando a ironia, Voltaire traz à luz os preconceitos, as desigualdades sociais, a ingenuidade do povo, as tiranias do Estado e da Igreja e, principalmente, a corrupção, questões muito atuais no cotidiano do país.

Terceiro: o escritor e filósofo iluminista se divide no otimismo exacerbado de Pangloss ("Tudo está bem quando tudo está mal") e o maniqueísmo de Martinho ("Eis como se tratam os homens uns aos outros") e confronta a amizade com o interesse, a benevolência com a filáucia, a sensibilidade com a brutalidade, a benquerença com a ganância, a ambição com a fé e o amor com o ódio. Um olhar mais apurado sobre a contaminada atmosfera política brasileira e sobre o desabrimento da nossa sociedade mostrará como é atual o pensamento de Voltaire.

A consciência coletiva, definida por Émile Durkheim como o "conjunto das crenças e dos sentimentos comuns à média dos membros de uma mesma sociedade que forma um sistema determinado com vida própria", foi totalmente eivada pelo nefasto absolutismo português, fomentando, assim, um círculo vicioso de causas e efeitos: os políticos sabem que a sociedade é frágil e faminta, então lhe atira as migalhas, como milho aos pombos, em troca de votos; e a sociedade se torna refém desses mesmos políticos.

Observem como se comportam os políticos e a sociedade brasileira. No fundo, há uma relação promíscua entre ambos; a única lei que, no paradoxo brasileiro, é levada ao pé da letra é a lei (não escrita) de Gérson: "Gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também".



O teor desta postagem foi publicada em O Globo On Line - Opinião do dia 15/09/2010, às 15.39 h. A avaliação feita pelos 22 leitores que comentaram o texto foi média 4,8 (a avaliação máxima é 5,0). 


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