”“Não compartilho meus pensamentos achando que vou mudar a cabeça de pessoas que pensam diferentemente. Compartilho meus pensamentos para mostrar às pessoas que já pensam como eu, que elas não estão sozinhas.” (autor não identificado)

terça-feira, 31 de maio de 2016

O intempestivo arrebatamento da minha perua ou a inveja da máquina

Era o último sábado de julho do ano de 2007; um luminoso e agradável dia do inverno carioca. Por volta das onze e meia da manhã. Resolvi levar minha perua para uma "geral", em um posto de serviços próximo a minha residência. Então começou minha agonia. 

Estacionada, com o para–choque dianteiro coladinho no da minha perua – bem de frente, estava lá, imponente, luzidia como uma baixela de prata argentina, uma outra perua. Tratava-se, não se impressionem, de uma francesinha de sangue azul, uma Renault Mégane Sport Tourer, motor turbo de 2 litros, com 180 cv de potência.

O motorista, posso até apostar três mariolas, não devia ser o dono de tamanha exuberância sobre rodas. Não; um proprietário de joia tão cintilante não seria tão insensato a ponto de estacionar seu patrimônio numa rua secundária e esburacada do subúrbio carioca, com o chão enfeitadinho de cocô de cachorro e lixo – muito lixo, a não ser que premido por coisa incontrastável.

Alguns minutos antes, um gato faminto tinha atacado um saco de lixo contendo resíduos de peixe espalhando os detritos fedorentos juntinhos à Mégane e observando, desconfiado, a calçada, para não sujar meus sapatos, percebi que uma das rodas da francesa, uma liga leve diamantada, faiscante, já estava batizada por algum vira-latas – cães vadios adoram delimitar seus territórios, balizando-os em rodas de carros (novos, é claro, nas do meu, que é velho, eles não vertem sua urina malcheirosa).

Pensei: o imprudente motorista vai levar um susto quando vier pegar a suntuosidade sobre rodas. Mas quem foi tomado de intenso sobressalto não foi o incauto, fui eu. O diabo, ou será a diaba, da minha perua se recusou terminantemente a funcionar com um mínimo de decência.

Quando liguei a ignição foi um ranger danado de correias, eixos, bielas e pistões. Na primeira tentativa, nada, só aquele rilhar de mal prenúncio. Na segunda tentativa, nova rilhação, só que desta vez mais zangada. Outra tentativa – pensei, a última, se não pegar, largo essa coisa velha e volto para os meus discos de vinil. 

Então foi um mhan nham nham nham lerdo, o que era sinal de aborrecimento da bateria. Outro mhan nham nham nham seguido de um pof pof assustado e logo a seguir um tranqüilizador vrom vrom vrom consoante com minhas exaltadas compressões no pedal do acelerador. Aí tirei o pé e seguiu-se o velho conhecido tuh tuh tuh tuh entressachado por um ou outro pof pof.

Meu coração, que já apresentava uma leve taquicardia, serenou. Fixei o cinto de segurança, liguei o rádio, previamente sintonizado na CBN, engrenei a primeira e acelerei suavemente, todo respeitoso. Aí veio o pânico. Foi uma desconjuntada sinfonia de tuhhh tuhhh, vrommm, pooof pooof pooof, tummm tummm, tuhhh tuhhh, pooof pooof pooof, tummm e depois de um solavanco atrevido e desrespeitoso, a perua danada "morreu".

Voltaram as palpitações no peito e um suor frio se anunciou no meu rosto esfogueado. Era já uma pontinha de exasperação, uma pontinha de nada. Dei umas quatro respiradas profundas e parti para a derradeira tentativa. A resposta da maldita perua foi um debochado mhan nham nham nham indolente e preguiçoso, que denotava toda sua insubmissão ao dono, todo seu escárnio.

Desisti de dialogar com aquela máquina insensível, insurgente, sediciosa, que naquele momento devia sim era estar acometida de uma impolida crise de inveja da Mégane Sport Tourer, que ainda há pouco estava, majestosa, tão pertinho dela. Se bem que, reconheço, ultimamente não a tenho tratado como ela merece. Pensando bem, semana que vem vou mandar fazer aquelas intervenções nos pára-choques e nos espelhos retrivisores, que ela tanto tem reclamado.

Ainda pensei em convocar a presença de Zenóbio Cará, o mecânico mais respeitado da região, mas recuei, lembrando da placa de papelão, escrita com "pincél pilot", que milagrosamente continua presa por um pedaço de barbante roto no portão de madeira da sua oficina, na rua de baixo.

Na placa está escrito, pelo próprio Cará "Não mecho nos carro com engessão, só nos carburado" (a vírgula é uma intromissãozinha minha na frase de Zenóbio).

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