”“Não compartilho meus pensamentos achando que vou mudar a cabeça de pessoas que pensam diferentemente. Compartilho meus pensamentos para mostrar às pessoas que já pensam como eu, que elas não estão sozinhas.” (autor não identificado)

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Quase tudo ou quase nada?

− É quase nada doutor, um tantinho à toa, coisa muito pouca, somente o suficiente.

Ismênio falava, de cócoras, sem olhar para o alto, enquanto com uma pequena pá de jardineiro, novinha em folha, ajeitava um pé de lírio trombeta, que teimava em não se desenvolver para floração.

− Eita plantinha difícil de se ajeitar, tá me dando uma dor de cabeça dos infernos. Se não florir para o finzinho de outubro, dona Abigail me mata, ela tá contando com esse lírio de finados para enfeitar o túmulo do falecido doutor Baraúna.

− Repare bem Ismênio, não é que eu seja insensível, mas você me diz que é quase nada, quando o que me pede é quase tudo.

O preto, ainda de cócoras, sentiu que a coisa ia complicar e resolveu ganhar tempo na palestra.

− Lá por São Paulo o pessoal chama essa planta de lírio japonês, apesar da sobrinha de minha ex-patroa, que é "engenheira de plantas" ter me dito que "lírio japonês é uma ova", que "a planta é originária mesmo é da China", que "o povo daqui é abestalhado, pensa que japonês e chinês é tudo a mesma coisa".

"Ignorância mênio" − ela só me chama assim, "muita ignorância desse poviléu", dizia dona Carlotinha, que estudou as plantas na faculdade.

O interlocutor falou, ainda calmo:

− Olhe bem Ismênio, você tem que entender que a coisa funciona um pouco diferente do que você pensa. Você vem e fala: “quase nada doutor”; porém esse seu quase nada é uma montoeira danada e eu considero que o que você quer mesmo é quase tudo.

O mulato já estava arrependido de ter tocado naquele assunto assim sem uma preparaçãozinha, sem uma lamuria já acertada na cabeça, ainda mais numa segunda feira, dia em que o deputado acordava com o focinho inchado de tanto, no domingo, comer cuscuz de tapioca, beber cerveja e se descabelar com mais uma atuação desastrosa do Atlético de Alagoinhas. Mas ele era insistente e ladino. Decidiu falar de seus conhecimentos sobre os lírios, apesar de não ser jardineiro, como ele mesmo dizia.

− Não sou jardineiro, sou apenas "curioso". Jardineiro mesmo é o Plácido, aquele sarará filho do dono do "ferro-velho", aquele mesmo que estudou até a metade do ginasial em Jequié e agora cuida dos jardins da casa do doutor Cravinho.

Agora sentado no chão, Ismênio dedicava-se a arrancar um matinho mal nascido que já se assanhava por entre os cravos amarelos. Dissimulando, olhar fixo nas folhinhas do capim áspero que tirava lentamente da terra e amontoava na calçadinha de pedra, disse:

Eu já vi uns lírios trombeta amarelos. Foi lá em Santarém, eu era rapazola, foi na época da inauguração da Rádio Clube e um primo meu, de nome Ananias Muniz, ia ser o locutor das notícias, mas se engasgou com um pedaço de osso de pato, bem na véspera, fez um lanho danado na goela e ficou sem falar uns seis meses, até penicilina teve que tomar. Pois bem, dona Carlotinha, a "engenheira das plantas", me disse que são brugmansias, nunca mais esqueci este nome: brugmansias; eu vi delas lá em Santarém, vi pencas delas. Dona Carlotinha me disse ainda, que lá na faculdade que ela estudou, no Rio de Janeiro, se comentava que aquela moça do cinema americano, esqueci o nome agora, que fez o filme do tal mágico, que tinha até homem de lata, morreu por causa de uma overdose danada de chá de lírio, mas ela disse também que nunca se soube se foi verdade ou não, as pessoas falam...

E Ismênio suava de pingar, pensando em como ganhar mais tempo, vencer por cansaço o patrão. Continuou com o lero-lero.

− Viu, doutor: dona Noélia, que tem uma ciumeira danada das plantas dela, agora anda toda da satisfeita com as begônias que nunca floriram tanto. Obra de quem? De quem? Pois eu lhe digo doutor: obra de Plácido. E tem mais doutor, ela já até pediu para o doutor Cravinho aumentar um tantinho o salário do garoto. Ela diz assim: Dá cravinho, dá o aumento pra ele, o menino tem as mãos de fada para cuidar das begônias, elas estão florindo que são uma beleza.

Já com o sol acalorando, assim por volta das nove e meia, o deputado Nestor Avelar Pederneiras, com sua indefectível calça de pijama azulzinha cor do céu já suadinha no gavião, andando a volta de Ismênio, se impacientava com o bla blá blá monocórdio do mulato.

− Preste bem atenção Ismênio: já estou ficando agoniado com essa baboseira toda de lírios, begônias e brugmansias. Eu lá quero saber das plantas da mulher do Cravinho. E esse tal de homem mágico de lata de filme americano, que diabo é isso? Vamos resolver logo essa situação desse seu quase nada, que daqui a pouquinho tenho que ir para a Câmara.

O “curioso” da jardinagem se encolheu todinho, quase entrou terra do canteiro adentro, o nariz de funga-funga começou a escorrer − alergia do “poli”, dizia ele.

− Eu gosto muito de você, tiçãozinho, seu pai serviu bem ao meu pai na pistolagem, mas você não deu para a coisa. Abigail gosta de você, porque acha que as plantas são bem cuidadas, eu vou deixando você por aqui, porque para outras coisas você não dá mesmo, e eu não posso lhe mandar para a rua assim sem mais nem menos, em respeito pelos serviços de seu pai ao meu velho finado. Mas lhe digo uma coisa: vou lhe dar cinqüenta e ficamos acertados. Sem chororô, viu.

− Mas doutor Nestor, cinqüenta é quase nada.

− Então, que é isso agora? Que ladainha é essa Ismênio, hem? Não foi você mesmo que disse que o que você queria era quase nada? Estou lhe dando o quase nada que pediu, e observe bem, para mim essa nota de cinqüenta, que lhe dou, é quase tudo. É pegar ou largar que eu tenho que picar a mula. Esse calor já está fazendo escorrer suor por entre minhas pernas, e isso me deixa nervoso. Pegue aí e não esqueça de agradecer, preto ingrato.

Ismênio pegou a nota novinha da silva e enquanto a metia no bolso o deputado Nestor Avelar Pederneiras já ia dobrando o canteiro das tulipas lilases, balançando a bunda, muito grande dentro da calça do pijama, em rumo da casa recém pintadinha de rosa bebê. Pois então não ia nascer a primeira neta do doutor Nestor e de dona Abigail? A primeira filha de Heleninha com aquele engenheiro atolemado nascido lá em Cruz das Almas?

Mas isso já é uma outra novidade...

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